Projeto realizado em Natal fortaleceu a autoestima, a autoria e o pertencimento das participantes, transformando histórias e saberes locais em duas coleções de produtos artesanais.
No bairro de Mãe Luiza, em Natal, o artesanato representa muito mais do que uma atividade produtiva. Ele carrega histórias, memórias, afetos e conhecimentos transmitidos ao longo de gerações. Foi a partir dessa compreensão que nasceu o projeto “Luiza: Mãe, Luz e Guia”, uma jornada de valorização das artesãs e de requalificação do produto artesanal produzido no território, Um projeto da Rede Destinos Sustentáveis em parceria com o Senac RN e o Hotel Senac Barreira Roxa.
O projeto teve início com 19 participantes e consolidou um grupo de 14 artesãs ao longo dos encontros. A maioria formada por mulheres com mais de 45 anos, incluindo participantes com mais de 70 e 80 anos. Essa diversidade de trajetórias trouxe ao processo uma riqueza especial de experiências, lembranças e saberes.
A jornada foi conduzida por Cristiana Dantas Ribeiro, a Cris Ribeiro, Designer Social da Lugares de Charme. Como facilitadora do projeto, Cris acompanhou as artesãs durante todo o processo de escuta, pesquisa, criação e prototipagem, valorizando os conhecimentos que cada participante já possuía e estimulando o desenvolvimento da autonomia e da autoria.
Seu trabalho seguiu o princípio de “interferir sem ferir”, apresentando novas possibilidades sem apagar os saberes, as histórias e as formas próprias de criação das artesãs.
Mais do que ensinar técnicas, a proposta foi ajudar cada participante a reconhecer o valor daquilo que já sabia fazer.
Valorização das artesãs e do território
Mãe Luiza é um território rico em cultura, história e identidade, mas que também convive com estigmas construídos ao longo do tempo. Essa percepção sobre o bairro influenciava a maneira como algumas artesãs enxergavam o lugar onde viviam e, em determinados momentos, até mesmo a forma como reconheciam o próprio valor.
O projeto trabalhou simultaneamente duas dimensões: o SER das artesãs e o SER do território.
Por meio de reflexões, vivências e momentos de escuta, as participantes foram convidadas a reconhecer suas histórias, virtudes, valores e capacidades criativas. À medida que fortaleciam a autoestima, também passavam a observar Mãe Luiza por uma nova perspectiva: como um lugar de potência, memória, cultura e inspiração.
Esse processo criou uma relação de pertencimento mútuo. As artesãs perceberam que Mãe Luiza faz parte de suas identidades e que suas próprias histórias, experiências e criações também ajudam a construir a identidade do bairro.
Criar sem apagar os saberes existentes
A partir de uma escuta inicial, foram identificadas as técnicas já praticadas pelo grupo, como crochê, fuxico, bordado e costura.
As artesãs participaram diretamente da escolha das técnicas, das peças e das tipologias que seriam desenvolvidas. Um dos momentos mais importantes foi a pesquisa iconográfica realizada no próprio bairro.
Durante a atividade de campo, as participantes observaram ruas, casas, paisagens, cores, letreiros, expressões e elementos do cotidiano de Mãe Luiza. Aquilo que antes poderia passar despercebido começou a ser reconhecido como referência cultural e fonte de criação.
A pesquisa resultou em palavras-chave, formas, cores e símbolos que orientaram o desenvolvimento dos produtos artesanais.
Duas coleções inspiradas em Mãe Luiza
A experiência deu origem a duas coleções autorais: “Farol de Afetos” e “Entre Ruas”.
A coleção “Farol de Afetos” representa o protagonismo feminino, a memória e as relações afetivas presentes em Mãe Luiza. O farol surge como símbolo de luz, orientação e força, estabelecendo uma conexão direta com a história e a identidade do território.
Já a coleção “Entre Ruas” traduz as cores, as expressões, a paisagem, o cotidiano e os elementos culturais encontrados pelas próprias artesãs durante a pesquisa de campo.
Utilizando crochê, bordado, fuxico e costura, as participantes transformaram referências do bairro em produtos carregados de significado. O território tornou-se fonte de inspiração, enquanto as artesãs passaram a ocupar o centro do processo como criadoras e autoras.
Da reprodução à autoria
Nas oficinas de prototipagem, cada artesã pôde escolher os produtos que gostaria de desenvolver. O objetivo era estimular uma mudança importante: deixar de apenas reproduzir modelos e passar a reconhecer-se como autora de suas próprias peças.
Também foram utilizados materiais acessíveis à realidade produtiva da associação, como algodão, tecidos e retalhos de malha, incluindo materiais provenientes de doações. Essa escolha contribuiu para que a produção pudesse continuar mesmo depois do encerramento das oficinas.
Durante o processo, as participantes demonstraram disciplina, dedicação, resistência e capacidade de superação. O cuidado com o acabamento e o envolvimento com as criações revelaram o potencial existente no grupo quando seus conhecimentos são reconhecidos e estimulados.
Entre as histórias marcantes estão as de Dona Carmelita e Dona Madalena, que criaram bonequinhas de pano representando Mãe Luiza. As peças expressaram suas maneiras particulares de criar e foram acolhidas como parte importante da identidade das coleções.
Reconhecer o valor do próprio trabalho
Nos encontros finais, as artesãs também refletiram sobre o tempo de produção, a hora de trabalho, a autoria e a formação do preço dos produtos. Foram desenvolvidas fichas técnicas para ajudar o grupo a compreender melhor os materiais, as etapas de produção e os custos envolvidos em cada peça.
Esse aprendizado foi essencial para mostrar que o valor de um produto autoral não está apenas na matéria-prima. Ele também reúne tempo, conhecimento, identidade, criatividade e história.
O projeto identificou que ainda existem desafios relacionados à gestão, precificação, apresentação, posicionamento e comercialização. Esses pontos representam os próximos passos necessários para que os produtos cheguem ao mercado de maneira coerente com o significado construído durante a jornada.
Um legado que permanece
Além das duas coleções, o projeto deixou como resultado um grupo mais unido, motivado e consciente de seu potencial. Artesãs que antes estavam mais dispersas fortaleceram suas conexões e demonstraram o desejo de continuar trabalhando juntas.
A aproximação com o roteiro turístico local também abriu possibilidades de integração entre artesanato, cultura e turismo. Entre as perspectivas apresentadas está a continuidade do diálogo com a loja do Hotel Escola Barreira Roxa, criando oportunidades de divulgação e comercialização dos produtos.
O encerramento reuniu artesãs, parceiros e patrocinadores para celebrar a jornada, apresentar as coleções, entregar os certificados e compartilhar os depoimentos das participantes.
O projeto contou com a atuação da equipe da Lugares de Charme, formada por Cris Ribeiro, Lucas Estanislau, Eudes Campelo, Samuel Xavier e Gustavo Fialho, que esteve conectada à iniciativa e contribuiu para a realização dessa jornada.
O maior resultado, entretanto, não pode ser medido apenas pela quantidade de peças produzidas. Ele está no despertar da autoria.
As artesãs de Mãe Luiza passaram a reconhecer que seus saberes, suas memórias e suas experiências podem dar origem a produtos únicos. Ao transformar o território em inspiração, elas também transformaram a maneira como enxergam a si mesmas e o lugar onde vivem.
O projeto “Luiza: Mãe, Luz e Guia” encerrou uma etapa, mas deixou acesa uma nova possibilidade: fazer do artesanato um caminho de valorização pessoal, preservação cultural, geração de oportunidades e fortalecimento do turismo de base local.
As artesãs terão a oportunidade de exibir e vender os seus produtos na lojinha do Hotel Senac Barreira Roxa , um dos maiores apoiadores deste grupo.
